“esta é uma história que vai comover todos os amantes das palavras”

Matteo, 8 anos, era um aluno de uma escola em Ferrara na região da Toscânia, em Itália. Um dia, a sua professora pediu a si e à sua turma que definissem uma flor, que arranjassem palavras que melhor descrevessem características desta parte da natureza. E assim os alunos fizeram, mas o menino utilizou uma palavra que a sua educadora iria considerar errada por ser inexistente no léxico da nossa língua irmã latina, a língua italiana. “Petaloso” era essa palavra, que também não existe e está em falta no português.

Então, depois de ter marcado essa utilização indevida como errada, a professora Margarida (Margherita) iria no entanto considerá-la como um “erro belo” porque na verdade e apesar da sua inexistência formal – nos dicionários – descrever uma flor como _ petalosa _ no sentido de que tem muitas pétalas, é uma ideia demasiado bonita para ser um erro como também por o ser verdade. E por isso Matteo não se deixou ficar e achou que a palavra deveria poder ser inventada! Se ele a inventou, quem é que iria impedir a sua existência?

Algo quase tão surreal como a criação de uma nova palavra por uma criança – petaloso – foi o rumo que tudo a partir dessa invenção errónea, mas bela, tomou. Margarida, professora ao que parece atenta até aos erros dos alunos decidiu então consultar a máxima autoridade no seu país para a língua italiana, em Florença, a Accademia della Crusca, sobre a viabilidade da criação ou sentido que a mesma teria caso fosse criada. Passado duas semanas – repito, duas semanas – a máxima entidade linguística para preservação da língua de Dante, respondeu a esta professora de Ferrara e a Matteo, dizendo que a palavra estava bem constituída e que poderia entrar para o Dicionário; contudo, teria primeiro de ser utilizada, falada para ganhar reconhecimento e aprovação dos falantes. Boas notícias até então.

Foi nos meses seguintes que se deu lugar a uma mobilização nacional popular por políticos, músicos, celebridades, e comunicação social etc., e muitos outros cidadãos que neste caso decidiram fazer um uso benigno do poder que a informação e a internet têm. Repondo a justiça ao que pode ser também bonito, o que dois meses antes seria considerado um erro passou a hashtag e de uma forma esperançosa atingiu finalmente estatuto de palavra, tendo circulação e utilização no vocabulário de todos os italianos. Isto foi em 2016.

Antes mesmo de tomar conhecimento desta história via António Mega Ferreira e o seu livro “Itália” via Nada Será Como Dante programa da RTP2, quando ditada no programa pela Filipa Leal sob a rúbrica Viagem na Literatura, o seu autor começa por dizer “esta é uma história que vai comover todos os amantes das palavras” concluindo que isto só poderia acontecer num país como aquele. Não sabemos. Mas eu comovi-me. E indaguei: de quantos erros belos precisamos para que algo seja levado a sério ou até, quantos erros são ignorados sem não poderem sequer ser belos ou até úteis durante o tempo que passamos a errar?

Texto da Autoria de Diogo Rodeiro Colaborador do Projeto Sonhadorismo