Nunca se falou tanto em mudança na educação como provavelmente nos últimos 5 a 10 anos. Tal não acontece por acaso. O sistema e modelo tradicional que conhecemos, simplesmente faliu. Não quero com isto dizer que andemos (os professores) a comer as criancinhas ao pequeno almoço, ou que lhes sejam criados traumas para a vida por frequentarem o nosso sistema de ensino. O sistema faliu porque não serve os propósitos, anseios, vontades de alunos e professores do século XXI. Isso gera um enorme sentimento de incompreensão entre os principais agentes das comunidades escolares (alunos e professores) e uma galopante desmotivação.

E eis que aparece o Corona Vírus. De repente a escola que nunca parou teve mesmo de parar. A escola que nunca realmente mudou teve mesmo de mudar.

Assim, se perguntarem a alunos e professores indiscriminadamente se desejam que a escola mude, a resposta será um enorme sim. Mas como?! Esta é a “one million dollar question”. Mudar um pesado sistema com séculos de história que se encontra sempre em andamento, sim porque a escola não pára, é mais ou menos como substituir uma roda de um camião em andamento. Não é impossível mas altamente improvável e arriscado de se tentar.

Falar de inovação na educação passou a ser recorrente na última década. O problema é que essa “inovação” representou só e apenas a implementação de programas, projetos ou medidas que globalmente em nada alteraram a educação. Apenas somaram a um sistema já extremamente burocrático e pesado, onde professores e alunos sentem falta de tempo sequer para pensar. Essas inovações na sua maioria, serviram apenas como cuidados paliativos para tornar a escola por algum momento mais suportável para alunos, e quiçá sobretudo para professores.

E eis que aparece o Corona Vírus. De repente a escola que nunca parou teve mesmo de parar. A escola que nunca realmente mudou teve mesmo de mudar.

Em alguns casos como o da escola onde tenho o prazer e o privilégio de desenvolver o projeto de Sonhadorismo, em menos de 72 horas, professores e alunos adaptaram-se a algo que poucas semanas antes, se tivesse sido sugerido, teria sido catalogado como loucura! Passar o ensino integralmente para a versão online!

Professores e alunos em menos de 72 horas estavam a “bombar” no mundo digital não deixando ninguém nem nada para trás. A loucura tinha sido possível. Passados quinze dias aproveitou-se a pausa letiva da páscoa para afinar estratégias e procedimentos e o 3º período arrancou a pleno vapor.

Obviamente existem ainda muitas dores de crescimento e a impossibilidade de garantir o mínimo contacto presencial e pessoal tem impactos negativos. Mas o que o Covid nos mostrou e está a mostrar é que sim, a escola pode mudar. Sim, os professores e alunos têm o potencial para co-criarem uma nova educação.

Partindo desta experiência a maior tragédia não será voltar ao antigo sistema, mas sim não aproveitar a oportunidade de a partir do que correu bem mudar realmente a educação.

Mas o que virá a seguir?!

Erik P.M. Vermeulen, Autor e Professor Universitário, publicou recentemente um artigo no site medium.com, no qual debruçando-se sobre esta temática, lança algumas pistas sobre o que poderá vir a ser o futuro da educação pós Covid-19.

Nesse artigo, o autor partilha uma evidência que também eu e a maioria dos meus colegas professores constatamos … a experiência do ensino online, correu agradável e surpreendentemente bem! Os alunos demonstraram um grau de autonomia e responsabilidade superiores ao normalmente apresentado nas salas de aula (haverá excepções concerteza). As ferramentas e plataformas online hoje disponíveis, e o facto de os alunos poderem acompanhar as atividades com computador ou telemóvel, tornaram possível a construção de aulas mais interativas e possivelmente até mais interessantes do ponto de vista das possibilidades de exploração dos conteúdos. Haverá disciplinas mais práticas onde tal não se tenha verificado, como em educação física ou educação visual.

O mais certo é num futuro próximo as escolas funcionarem num modelo dual entre online e presencial. Na minha opinião haverá grandes oportunidades a serem exploradas nesse sistema. Se pensássemos num modelo que condensasse os momentos presenciais a 2 ou 3 momentos semanais, o paradigma de interação entre alunos e professores poderia alterar-se significativamente….. para melhor. Libertaria o professor do seu papel de debitador de conteúdos, que seriam assimilados pelos alunos de forma online, promovendo o professor para um papel de tutor ou coach dos seus alunos.

As escolas vencedoras serão aquelas que ganharem a liderança. Ou seja, as que não se limitarem a oferecer aulas tradicionais em formato online, mas que tenham a capacidade de se reinventar.

Alunos e professores teriam mais oportunidade de gerir o seu tempo, evitar-se-iam perdas significativas de tempo em viagens diárias (o planeta agradece), potenciando assim o desenvolvimento da autonomia e responsabilidade.

No entanto a questão continua no ar… o que acontecerá a seguir?!

Erik V., aponta 3 grandes opções :

 

1 ) Regresso a Futuro

Não podemos esperar que esta crise simplesmente desapareça e voltemos ao “velho normal”. É muito improvável que as coisas voltem a ser exatamente da forma como eram.

Existem demasiadas variáveis / incertezas. O que farão os governos? Que medidas serão decretadas quando se decidir que todas as crianças e jovens voltam às escolas? Como reagirão pais, alunos e professores?

 

2)  O novo normal

Podemos adotar este modelo de basicamente fazer tudo como antes, limitando-nos a transferir as nossas atividades para o online. Ou seja a versão online do velho modelo.

No entanto esta opção não será sustentável a longo prazo.

Uma convencional aula expositiva na versão online é ainda mais aborrecida. Perde-se a interação, a linguagem corporal, o show, a performance. Ao mesmo tempo, on intervalos entre aulas, não têm o mesmo valor quando feitos online. Perde-se a interação entre colegas, as conversas o calor humano.

 

3) Disrupção total

A última opção é atuar de forma rápida e disruptiva! Avançar e tomar a liderança.
As escolas vencedoras serão aquelas que ganharem a liderança. Ou seja, as que não se limitarem a oferecer aulas tradicionais em formato online, mas que tenham a capacidade de se reinventar. Em baixo algumas das hipóteses para as escolas explorarem:

 

_ Gamificação do Ensino

As aulas on-line devem ser complementadas por vídeos, sessões de perguntas e respostas, questionários e jogos. A gamificação do ensino não é nova. No entanto tal como as aulas online que nos vimos agora finalmente “obrigados” a dar, fala-se disso há anos, sem que se veja uma implementação consistente desta prática de ensino.

 

_ Realidade Virtual e Aumentada

Será razoável assumir que o futuro próximo da educação será marcado por bolhas sociais de pequenos grupos de estudantes sujeitos a várias restrições de movimentos. Nesse novo ambiente, a realidade aumentada e virtual tornar-se-á imprescindível no ensino. Pensemos em viagens de estudo virtuais, reuniões de grupo virtuais e aprendizagens em grupo virtuais. Professores e alunos podem conhecer e interagir num ambiente online usando avatares.

Não há escapatória, vamos gastar uma quantidade significativa do nosso tempo nesses novos espaços virtuais. Mas não há razão para ficar com medo, não estamos a falar em transformar o ensino num jogo de playstation.

Num ambiente educacional pós-corona, a tecnologia VR não substitui o mundo real. Será exatamente o oposto. Ele complementará a realidade e abrirá portas para oportunidades sem precedentes e inexploradas, tornando as escolas uma experiência de aprendizagem imersiva e acelerada.

 

_ Boot Camps

A tradicional interação presencial e social continuará a ser relevante. Enquanto as regras de distanciamento social se aplicarem, as escolas que melhor se adaptarem a esta realidade oferecerão aos seus alunos sessão / laboratórios de grupo , onde os alunos se encontrarão, discutirão e aplicarão o que aprenderam “on-line”.

Usando essas estratégias, podemos criar uma experiência educacional digital mais sintonizada com os anseios e propósitos das novas gerações.

Essa nova experiência educacional deve ser construída em torno de momentos mais curtos e intensos de co-aprendizagem que valorizam a solução criativa e colaborativa de problemas.

Pode ser difícil para algumas pessoas aceitarem, mas a educação precisa de aprender com o sucesso das empresas de social media e jogos e não simplesmente descartá-las rotulando-as de nocivas e / ou prejudiciais.

Para o bem ou para o mal, todos nós agora vivemos num mundo onde nossa atenção é motivada por “recompensas variáveis”. Pensemos nos “gostos” das redes sociais que nos levam a verificar constantemente o nível de aceitação dos nossos posts. Ou o conceito de “juice” nos jogos, pequenas recompensas ou conquistas que os jogos oferecem após a conclusão de uma tarefa e que as empresas de jogos usam para atrair a nossa atenção e nos manter “agarrados” ao jogo.

A educação não pode combater essas tendências ou simplesmente ignorá-las. Antes, devemos entendê-las e adotá-las. Na era “pós-corona”, a sala de aula deve tornar-se numa manifestação deste novo mundo.

Afinal, o mundo real não é o melhor lugar para estudantes e professores se conectarem, experimentarem e co-aprenderem?

A mudança é agora!!

#KeepDreaming

Artigo da Autoria de Rui Loureiro, Mentor do Projeto Sonhadorismo