George Steiner, que deixou de poder conversar no dia 3 de Fevereiro deste ano – “morrer é parar de conversar” escreveu ele n’A Poesia do Pensamento (2011) – deixou-nos uma estória que considerava uma das “pedras de toque da civilização” quando entrevistado para um canal holandês a propósito do programa “O Belo e a Consolação”.

Ser instruído ou civilizado, na sua opinião e de uma forma sucinta, seria aprender alguma coisa “de cor”, expressão que vem do francês “par coeur”, literalmente “aprender com o coração” ou “apprendre par coeur”; mas mais ainda, se formos instruídos ou soubermos algumas coisas de cor conseguimos fazer face aos testes da vida, ao exame de nós-próprios, que devemos fazer, de quando em vez. Esta estória talvez seja conhecida de muitos, nomeadamente no país onde aconteceu, e já foi até teatralizada pelo encenador Tiago Rodrigues, o prémio Pessoa de 2019 – peça entitulada “By Heart”, a versão inglesa de aprender de cor, ou seja “learning by heart”. E decidi partilhá-la convosco não parafraseando Steiner mas contando-a apenas.

No ano de 1937 na União Soviética (hoje Rússia) – um dos anos em que o líder Estaline decidiu fazer “desaparecer” mais pessoas, sendo um dos piores desses tempos – houve um Congresso de Escritores no qual o líder e o seu carrasco Andrei Jdanov marcaram presença. No primeiro dia todos os oradores agradeciam ao grande líder, “obrigado” pelo novo modelo de verdade Estalinista, todos agradecendo ao “pai” da nação soviética. Um “clima” de horror deveria estar a ser vivido pelos escritores…

Um deles, um dos símbolos mais elevados da literatura russa de então de nome Boris Pasternak estava entre os seus colegas e não tinha ainda falado. Chegado o segundo dia, os discursos iam passando mas Pasternak não falava. Antes do certame o autor tinha recebido um “aviso” – que iria sem escapatória ser preso! Se falasse, seria preso; se não falasse, seria preso por insubordinação. O que fazer quando de entre as escolhas que nos dão nenhuma delas é a Liberdade? Foi então que os seus amigos lhe lançaram um apelo: “Boris, eles vão-te prender de qualquer das formas, diz qualquer coisa, pelo menos, alguma coisa que nós possamos guardar e levar connosco.”

 

Foi aí que Pasternak se levantou. Dentro do pavilhão estavam 2000 pessoas. Há quem diga que o silêncio se sentia dali até Vladivostok (que faz fronteira com a China e Japão, sendo a última paragem do comboio Trans-Siberiano, viagem essa que liga Moscovo a Vladivostok em 7 dias). Para surpresa de alguns, ele apenas diz um número… Um número…? De repente, todas as pessoas erguem-se e começam a ditar um poema de Shakespeare, que havia sido traduzido por Pasternak! Um poema de Shakespeare sobre a memória do passado:

“Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.

E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.

E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.

Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim.”
(Tradução de Vasco Graça Moura)

O que é que afinal isto significa? Significa que nenhum regime político pode destruir Shakespeare, que não pode extinguir a língua russa, que não pode ignorar a tradução do inglês de Pasternak, que mesmo que se possa prender ou matar toda a gente, não adianta porque dentro deles estes “tesouros” existem invariavelmente, de qualquer das formas. E o que é que acontece a seres humanos como estes? Nenhum Estado lhes pode tocar, nenhuma polícia os pode prender, nenhum desespero os pode assomar. E Pasternak, no final de contas, não chegou a ser preso.

Primo Levi, famoso sobrevivente do campo de concentração Nazi em Auschwitz que escreveu várias obras sobre a desumanidade que viveu – “Se isto é um Homem” – contou que a coragem para querer sobreviver veio do Canto de Ulisses da “Divina Comédia” de Dante, poeta italiano. Os poemas do igualmente russo Mandelstam sobreviveram graças à sua mulher Nadezhda, que ensinava um poema a 10 pessoas e assim sucessivamente, permitindo que as suas linhas vivessem – o escritor morreria num Gulag, os campos de concentração soviéticos, em 1938.

O que temos dentro de nós ninguém nos pode tirar. Estes são exemplos conhecidos. Porém há tantos outros que nunca verão a luz do dia. E que ainda assim dão luz, alumiam, bruxuleiam…

Crónica da Autoria de Diogo Rodeiro, Colaborador SDO