Na altura em que os televisores se pareciam a uma caixa, era mais fácil imaginarmos que para lá do ecrã pudessem estar outros mundos. A televisão, infelizmente, tornou-se no membro mais importante da família mas ainda assim representava um momento de convívio e dependendo dos casos, discussão. Hoje, todas as televisões adquiriram um forma lisa, standardizada e apesar de agora termos acesso a tudo, seguindo a lógica do seu formato, a nossa imaginação alisou no momento em que os outros mundos estão ao nosso acesso.

Com o Netflix então, a necessidade de usar a televisão como um meio já nem é necessária. Caso tenhamos o nosso PC e uns phones – nem precisamos de sair da sala para ir para o nosso quarto tantas vezes – entramos numa ilha do Entretenimento, isolada dos outros. Agora: quem é que diz que todos os momentos que temos disponíveis servem para sermos entretidos? E é verdade que as opções diferentes abundam, muitas delas até no lado do Conhecimento (um dos debates mais importantes do nosso tempo – Entretenimento vs. Conhecimento), mas é mais fácil ser entretido.

“As pessoas têm tendido a (com a ajuda das convenções) de resolver tudo em direção da facilidade, da luz, e no lado luminoso da luz, mas é claro que temos de nos agarrar ao pesado, ao difícil.” (Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke, tradução minha)

Sobretudo quando toda a gente vê o(s) mesmo(s) conteúdo(s). Não queremos perder os debates que temos no café, no nosso grupo de amigos, entre se a personagem X é mais fixe que a personagem Y – quando na verdade elas não existem na vida real. Mas não temos medo de perder o que é real, o nosso tempo? Que pode ser passado ou a obter conhecimento ou a fazer algo que não seja ficar com o cérebro dormente em frente a um ecrã? A hipervisibilidade, ou seja a visualização excessiva de conteúdos que não vão ficar no nosso cérebro ou não têm capacidade para o fazer por serem demasiados, destrói a possibilidade de imaginarmos; de nos ocupar por dentro de coisas que realmente gostaríamos de fazer, que nos dão sentido. E que são nossas (ao contrário da ilha imaginária).

Todos os que utilizam a plataforma conseguem admitir as suas valências. Mas como acontece com todo o mundo digital, é a nossa relação com ele que dita o que dele obtemos. O que é artificial não pode passar a ser o que é natural. Só valorizando o que é natural é que podemos apreciar o artificial (ou neste caso, o virtual). É preciso não nos deixarmos cair no “fascismo da vulgaridade” que nos dita que temos de ver a Casa de Papel ou o Tiger King. Quer uma quer outra, em aspetos distintos, não dizem respeito à vida real, ao que pudemos decidir fazer diferente dos outros, a distância que vai de entre nós e o mundo. Nem uma ou outra nos dá ferramentas para que o consigamos fazer.

E ainda assim, não conseguimos imaginar uma alternativa. Pudera, faltam-nos imagens dentro da nossa cabeça – o que se chama fantasia -, sinfonias tocando que nos levam a fechar os olhos para que as apreciemos com uma audição apurada, estórias que nos foram contadas e as que ainda temos de ler para que o nosso interior, por razão absolutamente nenhuma, esteja apetrechado com um chassis que tem um interior bonito.

A adição retira-nos da situação; já não sabemos como nos posicionar no mundo se não em frente a um ecrã. “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra (…)” escreveu John Donne em 1624, por isso não nos aventuremos em ser ilhas de Entretenimento, quando ninguém nos mandou ser dessa maneira. Tudo para que não caíamos na perda de tempo que é o nosso tempo e simplesmente nos deixemos cair no “fascismo da vulgaridade” do Netflix.

Texto da Autoria do Colaborador SDO Diogo Rodeiro