Ciao Maestro Ezio Bosso

“Ciao” é uma das mais belas palavras em italiano. É parecido com o nosso “xau” embora signifique quer “olá” quer “adeus”, e foi por isso que escolhi este subtítulo para falar do recém-falecido Ezio Bosso.

Creio ser importante falar de si e da sua grandeza, sem me aventurar demasiado na avaliação do seu mérito musical, que reside não só por ter convivido com uma doença neuro-degenerativa que primeiramente o impediu de tocar o piano e numa fase final, de atuar enquanto diretor de orquestra, algo que não lhe causou nunca constrangimento ou vergonha de exercer a sua carreira. Pelo contrário, sempre lutou contra o “pregiudizio” – o preconceito.

Quando o conheci pela primeira vez, foi numa das muitas navegações aleatórias pelo Facebook que me apareceu na altura sem saber quem era o intérprete, um vídeo do Festival di San Remo, um dos maiores festivais daquele país. Como tende a acontecer nos casos dos vídeos em que a circulação acontece quer em mensagens privadas quer nos respetivos murais ou feeds, trata-se quase sempre de algo: para rir, para sentir raiva ou para ter pena de alguém. E penso que o exemplo que na altura vi e nunca mais esqueci foi uma tentativa do último.

Antes mesmo da atuação, o apresentador aborda o pianista que já se encontra junto do seu piano para lhe fazer umas perguntas, como é habitual nestas ocasiões. E para espanto de quem não o conhecia antes deste vídeo, as suas respostas são quase impercetíveis e feitas com uma dicção lenta. Estava a responder-lhe a partir da sua cadeira de rodas. Parece uma cena de um “idiota” que se ri quando fala, gesticula imenso, parecendo não conseguir controlar o seu corpo, sendo o seu discurso de perceção difícil.

Mas, as suas palavras parecem ter o efeito contrário à forma como são expressadas. O maestro recorda as lições de um colega de profissão – “a música é a nossa verdadeira terapia”. Nunca saberemos se pela pena que a sua figura conferia ou pela simplicidade poderosa das suas palavras, alguns membros da orquestra emocionam-se – talvez por ter sido esta a primeira frase proferida: “A música somos nós. A música é uma fortuna.” (“Fortuna” em italiano quer dizer “sorte”. Talvez devêssemos  fazer mais uso deste significado na nossa língua sobretudo para que deixe de ser associada à posse de dinheiro, pois há várias fortunas na vida).

 

Sim, Ezio Bosso era e continuará a ser um maestro de música clássica, tendo feito parte ou colaborado com algumas das mais famosas orquestras do mundo. Foi sem dúvida através da sua baqueta, que afirmava ser igual à dos mágicos, que nos fez passar a magia, que é transmitida pela nossa maior fortuna: “poder ouvir”. No vídeo, ficamos a perceber de que magia foi capaz e qual a língua em que era mais fluente, mesmo depois da sua fala ter sido danificada devido ao acidente que sofreu, – a língua da música.

Naquele vídeo, que ainda se encontra no YouTube onde o fui reencontrar recentemente e do qual nunca esqueci por me ter ficado para sempre na memória aquela melodia, aquela doçura que comporta uma força poderosíssima, pus-me a pensar com ele no que pode a música fazer; foi num dos quase-infindáveis dias do primeiro período da nossa clausura forçada que estive eu, com o Ezio, a visualizar a emoção da música, como ela liberta. É essa a parte mais importante do vídeo, a da interpretação da sua canção “Following a Bird”, quando assistimos à libertação de um homem preso a um corpo (dito) deficiente.

A emoção de Ezio, que ele traduz em acordes de piano, faz-nos espairecer e fluir para fora de onde nos encontramos quando a escutamos; foi graças a este “poder oculto” (da música) que cada vez que assumia o comando do piano se libertava, tornando-se num pássaro para nós, inspirado num certo pássaro como confessa: “foi quando um dia estava a perseguir um pássaro que me perdi; e foi aí que comecei a raciocinar sobre a importância de nos perdermos para aprendermos a seguir”. Este é o legado – uma solução libertadora – que quis deixar com esta música tocada no seu piano, uma mensagem de alento para aqueles que não sabem que caminho seguir.

Daí ter sido um Maestro com M grande, assim como pela forma como sempre olhou para a vida e a música, que tantas vezes se fundiram. Conseguimos perceber essa sua dimensão em algumas entrevistas que concedeu e se encontram igualmente no YouTube. Nelas, sempre explicou que a sua origem não teria de definir o seu futuro e que mesmo nascendo filho de operários poderia ser o que sonhasse.

O seu exemplo é o de alguém que almejou vir a tornar-se num dos mais ilustres maestros do nosso tempo e que graças ao poder “libertador” da música conseguiu libertar-se, encontrando-se; outra imagem bonita apresentada por ele é um protótipo da sua “sociedade ideal” – a Orquestra – e porquê? “porque todos os seus membros têm a mesma importância” qual seja o instrumento que tocam. Apesar de eu nunca ter pensado numa orquestra como um tipo ideal de sociedade parece-me sem dúvida uma fonte de inspiração.

Tudo isto para dizer que Bosso foi muito mais do que um homem incapacitado que precisa de ser ajudado para ir para o palco ou sentar-se na sua cadeira de maestro defronte de um grupo de músicos. A comoção que irrompe do vídeo não é apenas a de sabermos que a pessoa que a está a executar é alguém naquelas condições, mas a sua beleza intrínseca. Por isso aconselho a “Following a Bird” para quem precisa bem como para os que não sabiam quanto dela precisavam.

Ao Ezio digo “Ciao e grazie maestro. Ci vediamo pronto!”

Texto da Autoria ddo Colaborador SDO  Diogo Rodeiro