Antigamente ter um emprego era por si só suficiente. Uma ocupação que garantisse o pagamento das necessidades básicas do indivíduo, da família e ocasionalmente se as poupanças o permitissem, um devaneio aqui ou acolá. Conforme os ordenados foram aumentando e as necessidades básicas facilmente satisfeitas, o emprego por si só já não chega. Temos de conseguir um emprego com propósito, algo que nos preencha para além da conta bancária. E aí entra a definição do emprego de sonho, alimentada por uma sociedade de sorrisos estupidamente brancos e polidos, onde qualquer coisa menor que a perfeição não é tolerada.

Rapidamente a insatisfação que nos vai assaltando o dia a dia, encontra justificação no emprego que temos. O vídeo que ontem nos atrasou a ida para a cama, no último deslizar pelo feed do fb ou instagram, mostrou-nos alguém com os tais dentes polidos a dizer que esta é a hora de sermos quem merecemos ser. Que está na hora de abandonar o nosso emprego e ir em busca do tal emprego de sonho. Mas existirá esse emprego de sonho?!

Pois bem …. a resposta por muito que nos custe é … não! Não existe um emprego de sonho! Não existem empregos de sonho à nossa espera. Não existe nenhuma receita que possamos preparar, que nos garanta o tal emprego de sonho.

Mesmo aqueles empregos que à partida nos parecem por diversas razões o emprego que nos fará a pessoa mais realizada da vida, poderá revelar-se o maior pesadelo.

O emprego de sonho não existe como fim. Poderá no entanto existir como consequência.

Baralhada (o)?!

Podemos ler a descrição de um emprego, as tarefas e objetivos associados e parecer-nos que é aquilo porque esperámos toda a vida. No entanto, o desempenho de qualquer atividade / função está dependente de uma série de interacções e factores que não controlamos, e que podem destruir todo o potencial desse emprego. Esses factores podem ser externos como chefias fracas, equipas de trabalho desmotivadas e pouco solidarias, más condições físicas de trabalho, até factores internos e pessoais, como alterações da nossa vida, desgostos, doenças etc etc.

Mas então não vale a pena lutar e buscar um emprego onde nos sintamos felizes, realizados e onde possamos ter um impacto positivo na sociedade?! Claro que sim!! Aliás, nem imagino como alguém possa trabalhar 8hrs por dia 7 dias por semana se não o fizer dessa forma.

Aquilo que devemos ter sempre em mente é que ter sonhos é mais importante do que o emprego de sonho!

Muitas vezes a nossa infelicidade, atribuída ao emprego, ao chefe, à falta de ar condicionado no escritório, ao aumento que nunca chega, está de facto associada a não termos para além do emprego outro objetivo em si.

Deixem-me que exemplifique na primeira pessoa….. A minha primeira experiência como professor de educação física foi algo que eu diria… pouco motivante. Na altura associei a má experiência ao emprego em si e assumi que não gostava de ser professor de educação física. Nessa altura, decidi apostar numa empresa que criara há pouco tempo, investindo num mestrado no estrangeiro. Durante um ano lutei arduamente para esse objetivo, mantendo o emprego de professor de educação física, que subitamente deixou de parecer tão desmotivante. Mas afinal o que tinha mudado?! O emprego era o mesmo. As responsabilidades e competências as mesmas. O salário o mesmo! Se alguma coisa tinha mudado era para pior pois nesse ano estava a mais de 150 km de casa. No entanto, nunca me tinha sentido tão motivado e feliz.

O que tinha mudado é que naquele momento, tinha um propósito, uma missão. Garantir em diversas áreas as condições exigidas para concretizar o meu sonho de ir viver e estudar no estrangeiro. E isso contaminou a minha vida por completo. Até o trabalho que outrora me pareceu tão desmotivante e sem propósito!

Esta situação repetiu-se por várias vezes ao longo da minha vida. Empregos que durante algum tempo me satisfizeram por completo e que de “repente” deixaram de me motivar. Apesar de a primeira reação ter sido o de “culpar” o emprego por essa situação, uma reflexão mais profunda revelou-me sempre que a causa estava relacionada com o facto de naquele momento, a minha vida estava carenciada de uma missão, um propósito um Sonho! Esta reflexão pode evitar a tomada de decisão instintiva e pouco refletida de abandonar o emprego, poupando-nos a momentos futuros de incerteza e até precariedade.

Por isso digo que para “encontrar” um emprego de Sonho, importa mais o Sonho do que o emprego em si!

Texto da Autoria de Rui Loureiro Mentor do Projeto Sonhadorismo