E subitamente passamos a ser atores num filme de ficção científica. Cenas que outrora víamos sentados num sofá e com distanciamento hollywoodesco passaram a ser protagonizadas por nós e pelas pessoas do nosso quotidiano. Incorporamos no nosso dia-a-dia novas palavras, novos objetos e especialmente novos gestos. E sem sequer termos ido antes a um casting ou termos tido tempo “à experiência”! Pumba. Já somos atores. Que inquietação esta de nos vermos numa nova pele! Estaremos à altura de desempenhar este papel?


Cada um de nós enfrentará este desafio com a bagagem que já tinha carregado dentro de si. Para uns será mais fácil do que para outros lidar com os dois grandes vetores desta pandemia: o isolamento (que não implica necessariamente solidão) e o medo.

A gestão do medo implica a apropriação de meios para o dominar. Desejamos manietar o vírus, mas temos que começar por controlar o medo e a forma como vemos o presente. Sim, porque o futuro não sabemos quando começará. Apenas sabemos que virá.


O isolamento obriga-nos a adaptação de modos de vida e de interação com os outros, que passam essencialmente a estar presentes em ecrãs e monitores, obrigando-nos a virarmo-nos para dentro de nós próprios e para aqueles poucos com quem partilhamos estes dias; impele-nos a fazer da nossa, tantas vezes apenas casa, o nosso lar; faz-nos aprender.


A gestão do medo implica a apropriação de meios para o dominar. Desejamos manietar o vírus, mas temos que começar por controlar o medo e a forma como vemos o presente. Sim, porque o futuro não sabemos quando começará. Apenas sabemos que virá. E quando vier, poderemos melhor desfrutar dele quanto melhor vivermos o presente. Prepararmo-nos pode implicar ajuda de amigos ou de profissionais, mas envolverá sempre um trabalho de desenvolvimento pessoal.


Para lidar quer com o isolamento, quer com o medo, a melhor arma é, ainda que ironicamente, a interação com os outros. Nas últimas semanas, aumentaram os telefonemas simples: preocupamo-nos mais e com mais frequência em ligarmos aos mais velhos da nossa família, mas também àquele amigo a quem já devíamos um telefonema há tanto tempo; as chamadas com vídeo levaram-nos a instalar apps que a maioria de nós nunca tinha usado e entramos na casa dos nossos amigos e familiares desta nova forma. E o que dizer da vida em vizinhança? Quem vive em prédios viu aumentar o sentido de comunidade: sabemos de jovens que se voluntariam para levar compras a vizinhos mais velhos, há aqueles que fazem listas de compras comuns, há quem troque receitas culinárias. E depois há momentos como o que vivi no prédio onde moro há algumas noites:

Já a noite tinha caído e duas jovens que vi crescer deram um mini-concerto de música clássica / canto lírico viradas para a fachada do prédio e para as suas varandas e janelas. Com um violino e voz, a Luzia e a Inês encantaram e emocionaram os habitantes deste prédio, interpretando “Convién partir” e “Nella fantasia”. Sentimento de união de almas.


A Luzia e a Inês são exemplos de Sonhadorismo: em tempos ímpares, conectaram-se com as suas paixões, mobilizaram-se com novos métodos (ensaiaram à distância, cada uma na sua casa), empreenderam os seus pequenos grandes sonhos de levar música aos outros.


Acreditemos que seremos grandes atores neste filme das nossas vidas, que podemos ser agentes de mudança positiva em nós mesmos e nos outros! O óscar estará ao nosso alcance! “Convién partir”!

Texto Escrito Pela Colaboradora SDO Cláudia Espassandim