Ontem ao caminhar na baixa da Cidade de Coimbra, encontrei algo que imaginava já extinto! Uma loja de discos. Sim uma loja de discos vinyl. Na rua… fora dos centros comerciais. Foi ao espreitar a sua montra, que encontrei algo que à muito procurava. O DVD do documentário dos Tédio Boys!!

A minha mente ficou presa naquele retângulo de plástico e fez-me recuar no tempo, até aos anos 90 durante os quais uma banda de Coimbra, os Tédio Boys, marcaram uma geração.

Os Tédio Boys eram uns freaks do caraças. Uns Rockabillies à séria. Uma malta que destilava energia e revolta, perante um status quo de uma cidade presa aos costumes e vícios Universitários. Eu devia ter uns 13, 14 anos, e não era freak nem punk, mas sentia-me atraído por tudo o que cheirasse a subversão. E os Tédio Boys tresandavam a isso! A sua génese deve-se, dizem ao Tédio que sentiam nessa Coimbra dos anos 90.

Para além dos concertos que davam no pequeno circuito musical da Cidade, no qual se inseriam, organizavam concertos relâmpago na baixa de Coimbra, mesmo ao lado da loja do Pai de alguns dos elementos da banda, os quais terminavam invariavelmente com uma forte carga policial, e a banda toda refugiada dentro da loja. Era uma sorte conseguir ouvir mais do que duas músicas, pois a esquadra da polícia distava menos de 500 metros do local do concerto…..Haverá algo mais subversivo que isto?! Os gajos eram mesmo os maiores! Quando atingiram alguma notoriedade fora da cena Rockabilly, e começaram a ser reconhecidos no mainstream, foram convidados para atuar no palco principal da queima das fitas. Podiam ter-se deixado ofuscar com o estrelato, mas não! Fieis a si próprios, subiram ao palco todos nus, com frangos a taparem-lhes as partes baixas! Foi o delírio! Passado pouco tempo os frangos “voam” e o concerto termina.

Os rumores de que haveria um concerto dos Tédio Boys, começavam a circular ainda durante a manhã, pelas secundárias da cidade. E aquela onde eu andava, a Avelar Brotero, tinha uma dedicada comunidade de Punks, Góticos, Rockabillly, Freaks. Malta com grandes cristas, botas DocMartens e sapatos Hard Creepers, que conviviam pacifica e harmoniosamente com todo o resto de tribos. Os desportistas, os nerds, a malta das oficinas…….

Eu que vivia precisamente por trás da Esquadra da Polícia, após o almoço, mantinha-me a alerta na varanda para quando ouvisse os primeiros acordes, disparar escadas abaixo e correr mais que podia, na esperança de chegar primeiro que a polícia. Eu não pertencia fisicamente aquele mundo, mas aquela forma de afrontar o estabelecido, fazia-me sonhar.

Hoje quando visito as escolas ás quais levo o Sonhadorismo, procuro reconhecer, os Punks, os Freaks, os Sonhadores de agora, mas invariavelmente encontro uma uniformização preocupante. Falta a esta malta de agora, capacidade de questionar o estabelecido, de assumir posições que contestem as hierarquias. Para Pais e Professores é bem capaz de parecer ótimo que assim seja. Mas para o presente e futuro da nossa sociedade é incalculável o preço da extinção dos … Filhos do Tédio!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto da Autoria de Rui Loureiro, mentor do projeto Sonhadorismo