Caminhava eu no outro dia de minha casa até casa dos meus Pais para ir buscar os meus filhos, quando ainda no início dessa caminhada, que nos dias de hoje marcados pela dependência dos automóveis é já de si algo fora da norma, ouço alguém chamar por mim. Não pelo nome, mas algo tipo : “ei… tudo bem?”?

Olho para trás e vejo o Chiquinho! Roupas largas, andar largado, gingão, rastas no cabelo, piercings por todo o lado e um rasgado sorriso na cara! O Chiquinho é um miúdo que conheci, quando ele teria uns 12, 13 anos e era uma das maiores esperanças e promessas do Surf da Figueira. De promessa ao ocaso foram poucos os anos que se passaram. Deixei de ver o Chiquinho, e as poucas vezes que o via, pareceu-me sempre muito alheado do surf, daquilo que me era familiar, no fundo …. da norma.

Sempre que se falava do Chiquinho, as expressões e os relatos, não eram propriamente os mais favoráveis ou promissores.

Talvez por isso e após caminhar poucos metros a seu lado, a minha incapacidade de gerir o estar na presença de alguém fora da “norma” e do incómodo que isso me causava, me tenha empurrado para a vontade de encontrar uma desculpa e despedir-me dele, virando na próxima rua. Mas não…. Confiei numa subtil intuição que me disse… “deixa estar, aproveita esta situação”… E assim foi.

Caminhei com o Chiquinho uns 20 minutos, sempre numa conversa agradável e tranquila. Fiquei a saber que tinha estado na apanha da pêra e que contava ir agora para França para as vindimas. Entretanto tinha ido a um festival e um mergulho mal planeado num riacho, valeu-lhe bater com a cara no chão e perder o piercing entre os olhos. Era por isso que ia ao Avenida Shopping. Para repor o piercing e que por isso se despedia de mim ali.

Sorriso largo aperto de mão sincero e um “gostei de te ver” que me encheu a alma.

O Chiquinho não caberá certamente na “norma”, tomará muitas decisões e opções que aos da “norma”, será difícil de perceber ou entender, mas pareceu-me genuinamente feliz! E nos dias de hoje onde os “normais” têm tanta dificuldade em experienciar esse sentimento, talvez seja só mesmo isso que importa… Ser-se Feliz!