É curioso o duplo ou o múltiplo sentido que as palavras podem assumir. Não, não é a generosidade das elites que nós precisamos porque a realidade na qual essas vivem não é, há já muito tempo, parte da realidade real de todos nós. Nós precisamos é da generosidade de Elite.

Esta generosidade de que vos falo talvez não seja estranha aos nossos avós ou até mesmo aos nossos pais, que sabiam que em cada vizinho poderia estar um potencial amigo.  É verdade que esta é uma característica de uma “consciência antiga”, que já não pertence à ordem do mundo de hoje em dia. Mas ela não existe apenas no dia-a-dia, porque estamos todos muito ocupados, ou porque alguém nos obriga a sermos ocupados – com o trabalho, com as compras, com os nossos ente-queridos, etc – ou seja, fomos obrigados a esquecer que a natureza humana tem também em si a capacidade de se realizar nos outros, de ser generoso e de estender a mão quando o outro precisa. Quem diz a mão neste caso pode também dizer uma máscara ou um ventilador.

É inédita a situação que vivemos, para as pessoas de todas as gerações, porque à exceção das gripes das aves e dos zikas, nada assumiu esta dimensão nos últimos cem anos. Isto significa portanto, que sendo uma situação nova, também terá de ser nova a nossa atitude; ora ter uma atitude nova não significa inventar uma nova emoção ou sensação nunca antes partilhada pela raça humana. Infelizmente nos nossos tempos sentir algo novo significa ir buscar à sabedoria do passado valores que realmente importam. E se não estamos ocupados com o que habitualmente estamos, temos então o tempo e a possibilidade de reflexão sobre o que é que afinal a minha comunidade precisa – de maior generosidade.

Porque as comunidades são, há milénios, a forma de organização humana no Mundo. Nenhum Ser é uma ilha isolada. Estar entre amigos, ou conhecidos ou pessoas-que-cumprimentamos-todos-os-dias-e-sorriem-para-nós significa verdadeiramente ser livres porque sabemos que a nossa presença serve, pelo menos, a função de desejar um bom dia ou de sorrirmos para alguém. Até mesmo na sua origem liberdade signfica “estar entre amigos”. E o Bom Dia pode ser mais bonito que a Odisseia de Homero, como defende a Adília Lopes:

“Preciso que me reconheçam
Que me digam Olá e Bom dia
Mais que espelhos
preciso dos outros pra saber
que eu sou eu”

Adília Lopes

A generosidade de Elite acima de tudo é o reconhecimento daquilo que nos é totalmente necessário e saber o que, por sua vez, é apenas e só acessório. Nós não precisamos de adquirir mais nada para sermos mais felizes. Precisamos de ser felizes porque afinal ainda somos generosos. E isto só é possível porque a condição humana não é nem má nem boa – é ao mesmo tempo as duas.

E a generosidade de Elite não tem de existir apenas nos tempos de aperto em que todos sofremos e a partilha desse sofrimento é feita por todos. Mas é agora que precisamos mesmo dela, num esforço conjunto de reconhecer que o meu vizinho é mais importante que o meu telemóvel. E que os esforços que a minha comunidade precisa de mim serão correspondidos na medida possível de uma resposta minha. Quem sabe se um dia não serei eu a ser alvo de uma generosidade, amiga ou alheia.

 

Até lá …. #KeepDreaming

Texto da Autoria do Colaborador SDO Diogo Rodeiro