Tendemos a pensar na gastronomia como parte da cultura. Quando tantas vezes a gastronomia se constitui a si-própria enquanto tal.

A América Latina é um caso, como mostra a série documental Street Food Latin America. O continente mais diverso do mundo e onde a comida é indígena porque a terra, apesar de ter sido retirada aos seus herdeiros legítimos, é uma amostra do “arco-íris humano” de que Eduardo Galeano fala quando exprime o amor pelo  seu continente.

No Peru por exemplo, existem 1000 tipos de batatas nos Andes e na Argentina ou mesmo até na Patagonia, no fim da Argentina, um grupo de cozinheiros reunidos por Francis Mallman (o eremita mais elegante do mundo) realiza o ato da maestranza, uma palavra que ele pensa ser de uma origem linda, que significa o ato de todos contribuírem para a refeição de todos, o labor comunal organizado por ti, para mim.

São muitos os “saberes e sabores” de um continente que segue sendo pilhado há 500 anos. Quando os europeus chegaram, o continente contava 70 milhões de habitantes indígenas – os “índios” – e um século e meio apenas depois eram 3,5 milhões segundo a obra prima “As Veias Abertas da América Latina”. Uma persistência trespassada através dos palatos comuns, por entre o tempo; por dentro do tempo existem sempre receitas deliciosas, mulheres que sendo vendedoras de comida de rua combatem o prejuízo naquele continente machista. Em La Paz, a cidade capital boliviana que se situa a 3600 metros é testemunha de estórias destas.

“O mundo não está feito de átomos, disse ela, o mundo está feito de estórias” diz, continuando “eu concordo com ela, o mundo está feito das estórias que ouvimos, que contamos, que acrescentamos, que replicamos, essas estórias que tornam o longínquo em perto e o insignificante em significante.” Eduardo também deve ter escrito sobre a comida do seu continente natal. Para ele, que aprendeu e se formou nos cafés de Montevideu, que ele mesmo considera como sua Universidade, devem ter sido alguns os seus doces favoritos que comia enquanto ouvia as conversas das outras mesas, ingerindo assim a sua lição.

Através da boca e do estômago o preconceito pode ser digerido. Existem tantas portas abertas, obsequiosamente entreabertas por escassez de comensais de restaurantes “exóticos” ou “estranhos”. Ou mesmo quando temos vizinhos estrangeiros. Confundir o estranho com o estrangeiro pondo em causa o delicioso pode ser um erro caro. Nunca me esquecerei daqueles que até agora me ofereceram a comida deles com o brio devido, numa prova cega que leva a uma experiência expansiva, que nem sempre tem de ser deliciosa. Para se comer um prato excelente, temos de arriscar o barbeque improvisado durante um campismo selvagem ou numa mesa qualquer. Os sabores e saberes das especiarias que toldam os nossos ritmos, confortando-nos assiduamente, e dando sempre espaço na mesa para o outro ou para a comida do outro, são um dos motivos primordiais para existir uma partilha real e humana.

Porque tal como no caso da cultura, não existe uma gastronomia mais deliciosa do que a outra.

Texto da Autoria do Colaborador SDO Diogo Rodeiro