O erro de repetir a História:
Surge a sinistra moda de ver no passado as similitudes, as lógicas e os mecanismos pelos quais o presente dos tempos peca ou se caracteriza. Devemos objectivamente focar-nos na excepcionalidade que faz cada circunstância da actualidade e não nos deixarmos enlear por falaciosas associações que só nos conduzem a iguais e crassos erros. E isto porque insistimos em avaliar os actores de hoje com as medidas de ontem, a restringi-los a uma lógica de outrem e de outrora. Naturalmente que este reducionismo historicista somente pode degenerar na repetição da História que aqui é, por desastrada encenação dos analistas, uma forçada reprodução perigosa do que nunca se poderia assemelhar senão num entendimento pervertido e precipitado.
Deixai, pois, repousar no passado o passado que só do presente nasce o futuro! Passado não é passado, contrariando a máxima popular, porque o passado pode ser presente se houver memória. A memória, porém, é isso mesmo: memória e não um guião de interpretação rígido de tudo o que nos confronte, porque sendo semelhante não é ser igual e o pormenor define a exactidão das respostas. Tudo quanto se assista amanhã será necessariamente novo tal como devidamente adequada deverá ser a abordagem. A intuição que nos leva a aplicar uma metodologia estritamente historiográfica na análise da política compromete o verdadeiro racional das dinâmicas de poder e sua compreensão, forçando-as aliás a uma condição meramente passiva e mimética de outras anteriores. Ora isto faz com que acabemos por nos deparar com cenários abstrusos e anacrónicos, precisamente porque forçámos, no âmago da nossas concepções, a História a repetir-se.
Fenómenos como Trump surgiram porque nos dedicámos a interpretar continuadamente a crise económica de 2008 e suas consequencias como uma segunda grande depressão. E não o foi, de todo, nem mais nem menos. E a Síria é corolário do paralelo ridículo que se quis estabelecer entre a primavera árabe e a terceira vaga de democratização que ocorreu no decurso da Guerra Fria até ao seu final. Por aí em diante, o regresso da ideologia a História não é uma sentença ao passado, é um apelo ao futuro com a voz mais forte que o presente possa ter. O fatalismo condiz com o declínio das civilizações. Rejeitá-lo é reconhecer a virtude do tempo que se faz num linha de progresso, como Hegel o advogou.
Lembro-me, todavia, que Césaire afirmou que Hitler tinha enfurecido a burguesia que o apoiou ao ter ousado aplicar as premissas do colonialismo a Europa civilizada. Pois, parece que hoje as classes médias continuam embrulhadas em tal silogismo do síndrome do colonizado em que todas as movimentações políticas são tidas como a afirmação de poderes opressores que surgem para colonizá-los de certa forma, seja por via económica, cultural e tudo-e-tudo… Isso leva-nos à via que Fanon descreveu como sendo a libertação do colonizado pela via exclusiva da violencia. É esse o caminho que a Europa tem escolhido.
Terminando, aflui-me a velha máxima clausewitziana para saber perfeitamente o que no vazio dos tempos sucede a Política: a guerra.
Texto da Autoria de Bernardo Marinho da Mata, para o projeto Sonhadorismo







Leave A Comment
You must be logged in to post a comment.