Querido Mundo,

Não me conheces, nem eu a ti. Não como queria. Não – ainda, espero eu. Mas, acredita que estou aqui, em ti, de braços abertos. E esta carta é a prova disso. Sinto que tenho alguma coisa para te dizer. Por isso, olha, gostava que me ouvisses. Não, não te preocupes – Prometo que serei breve.

Por isso, para cumprir com a minha palavra, vou saltar a parte em que me apresento. Apesar de também não ser relvante, acho que só precisas de saber que sou uma miúda, igual a tantas outras, mas que em cada músculo, tem um coração.

 

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A verdade é que não te vou contar nenhum segredo e desconfio que não chego acompanhada de nenhuma novidade. Tudo o que te direi, possivelmente, já ouviste falar ou já te passou pela tua própria cabeça. Ainda assim, ora escuta:

Mundo: Não te vou gritar, porque acredito já estares cansado desse ensurdecer de vozes. Escrevo-te em silêncio, mas podes ler-me em voz alta, se preferires. Não te quero dar nenhuma lição, porque também não as tenho, nem quero convencer-te de nada. Só quero conversar contigo, pode ser?

Lembrei-me de te escrever porque voltei agora de uma viagem, onde fui confrontada com a questão:

“Si bu tem um segundo

Pa bu salva mundo

Kuze ki bu ta fazi?”

Não tive uma resposta imediata. E isso assustou-me. Acho que continuo a não ter, o que me assusta ainda mais.

Será porque um segundo é pouco? Será porque há tanto para salvar? Será porque a vontade é imensa, mas o medo maior?

Vou ser franca: Não sei as respostas. Mas tenho vontade de encontrá-las, para fazer mais perguntas.

E o meu percurso de vida, ainda muito tenro, tem sido esta procura, a partir do dia em que vi transcrito numa parede o verso “Ninguém pode sonhar por ti”.

Por isso, sonha tu. Sonha sozinho, se for preciso. Sonha em voz alta, para que te possam ouvir e corrigir. Para que te possam mandar calar, também. E para tu calares e voltares a falar, ainda mais alto.

Sonha acordado, aproveita os sonhos que tens quando dormes, sonha com o que quiseres, mas sonha. E faz acontecer.

Porque, Mundo – meu querido – é fácil.

Sabes como é que eu sei?

Porque das minhas feridas nasceram cicatrizes, que me provaram que somos sempre mais fortes, do que imaginamos.

Porque, um dia, apontei para a testa cozida de um miúdo de quatro anos e perguntei “Dói-te?”. Ele, que tinha caído ao tentar trepar uma árvore para apanhar uma Papaínha para comer, respondeu “Para a próxima tenho que voar, não é?”

Porque, há muito pouco tempo, houve um rosto que, ao meu colo, olhou para mim e me pediu “Leva-me à Índia”.

“À índia? Porquê à Índia?

Porque sempre quis ir à América”.

E mesmo não conhecendo a realidade, mesmo sabendo que era díficil, mesmo desconhecendo totalmente o caminho, queria ir. Sonhou, não importa porquê. Deu o primeiro passo, que é sempre, ao mesmo tempo, o maior travão.

Por isso, Mundo, acredita:

As portas podem estar trancadas. Vão estar.

Vais ter receios. E incertezas. Vais tropeçar e fazer as coisas mal.

Vais ter a certeza que estás cem por cento certo e vais perceber que talvez não fosse bem assim.

Vais engolir esses socos no orgulho, arregaçar as mangas, suar as camisas. E vais chorar, e rezar, mesmo que não acredites em nada.

Vais roer as unhas, sentir a pressão, vais pensar em desistir e vais sentir-te, muitas vezes, sozinho.

Vão dizer que és doido, que “isso é díficil”, que não sabes onde te estás a meter.

Possivelmente, não sabes, é verdade. Mas atreve-te a descobrir, pelo menos.

Vais ter pessoas a dizer que és o maior, que tens ideias brilhantes, que vai parecer canja. Não lhes dês ouvidos também.

És só aquilo em que acreditas, e aquilo que dás.

Vais passar noites a trabalhar, a pensar e a rasgar os papéis na manhã seguinte, por perceberes o quão destruidor pode ser o sono.

Vais ter dias cheios de pica e vais achar que é a altura em que vais mudar a tua vida, fazer a diferença nos caminhos de outros, que talvez nem conheces agora.

Vais ter orgulho em ti, mas vais sempre sentir que podes fazer mais. Que, na verdade, és inútil.

Somos todos. Que façamos o que fizermos, há sempre mais a fazer. Há sempre algo a melhorar, mesmo que no momento não nos apercebamos.

Inúteis, sim. Uns menos que outros. Uns muito menos que outros. Por isso: Sonha e torna-te excepção à regra.

Trabalha muito. Cerra os dentes, bate o pulso, se for preciso.

Acredita. Ouve os mais velhos, aprende com os mais novos, inspira-te.

Respira persistência, pede desculpa, quando errares. E segue em frente.

Cria a tua história e deixa-a escrita. Não precisas que ninguém a leia, nem os teus netos. Fá-lo por ti. Pelo que acreditas. Pelo que desejas melhorar.

E quando já tiveres mudado: Continua.

O maior erro de conseguir é parar, é sentir que a missão já terminou, é achar que já se fez o necessário. É achar que já se consegue tudo, quando, na verdade, ainda nada se fez, para além do nosso dever.

E descobri isto quando, numa tarde de Abril, vi um amigo que, ao cumprir um objetivo, não estava feliz.

Questionei-me porquê e não percebia. Pensei que seria ingrato ou ambicioso demais. Depois percebi que era só exigente. Porque, sim: Cumpriu o desafio. Mas podia ter cumprido em menos tempo, ou de uma outra forma que, inicialmente, não se recordou.

Tenho a reação dele como um exemplo, sempre que sinto que devo festejar alguma vitória. Festejo, claro, como os momentos bons, merecem.

Mas foco-me no imediatismo que o próximo passo exige, não esquecendo o que todos e cada um dos tropeções me ensinaram até ali.

Por isso, Mundo:

Quando sentires que algo é injusto, luta.

Quando achares que podes fazer diferente, arrisca.

Quando te parecer que é dificil, aventura-te.

Quando não te apetecer, olha à volta.

Vais perceber que és pequenino, que vais continuar a girar, independentemente de tudo, mas que existes. Não deixes que isso seja em vão.

Por agora, despeço-me com um abraço.

Fico inquieta, à espera de te ouvir, e prometo que andarei por aí, à procura do esconderijo da resposta à pergunta que me fizeram.

Até já. E peço-te, não te esqueças: Não te fiques pelo sonho – Prometo que só leva um segundo.

Beatriz Dias

Fundadora do Já T’Explico e Vice-Presidente da Gap Year