“Olá,Conheci o sonhadorismo ano passado através de uma pesquisa sobre o Futurália e o projeto encantou-me profundamente, pois, à altura dava aula para alunos do Ensino Secundário e percebia neles uma apatia imensa em relação a absolutamente tudo o que não fosse Festa de 15 anos.”

Assim começava o email enviado por Izabela de Almeida Alves, professora de Português do Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré de Belém do Pará, no Brasil. Sim… Brasil… o Sonhadorismo chegou ao Brasil !!!!

Imaginar que algo iniciado de uma forma completamente altruísta e apenas com a vontade de passar uma mensagem e uma visão, pudesse um dia inspirar pessoas do outro lado do Atlântico, era algo completamente para além dos nossos …. Sonhos 🙂

Nesse email de 24 de Abril de 2018, Iza confessou a sua vontade em desenvolver um projeto de Sonhadorismo com os seus alunos. Desde esse dia e depois de dezenas de emails trocados, o sonho tornou-se realidade.

 

SDO : Quem é a Iza Haber?

Na verdade, “Iza Haber” é um nome que uso de forma mais artísticas, para meus afazeres artísticos. Haber é o nome da família do meu avô paterno, que foi trocado por “Alves” quando ele veio do Líbano para o Brasil. Izabela de Almeida Alves é uma sonhadora incontida. Fui uma aluna ao estilo “Mafalda”, personagem do cartunista argentino Quino, chegava ao extremo de não estudar certas disciplinas por julgar desnecessárias, ou por não compreender a aplicabilidade delas. Sentia falta de uma escola que contemplasse minhas habilidades, quando sentia qualquer chance para trabalhá-las, ficava extremamente entusiasmada. Em meu percurso conta-se a experiência de uma banda de rock por alguns anos, compunha e fazia shows,
estive vivendo o show bussiness por pelo menos 15 anos da minha vida. Paralelamente a isso, formei-me em letras e obtive mestrado em Estudos Literários. Na sala de aula vejo a chance de poder dar aos alunos a escola que queria para mim. A Iza cantora, frontgirl de banda de rock, atua em alguns momentos, gerida pela Iza “Mafalda”, que vive insatisfeita com o
contexto sistémico apresentado. Fora isso, a Iza escreve, sonha, cozinha comidas vegetarianas, cria duas filhas, cinco gatos e viaja sempre que dá.

 

Eu indivíduo, via-me representada pelo conceito e eu professora via uma luz ao fim do túnel. Falar de sonhos hoje é um ato corajoso, viver os sonhos é um ato de resistência.

SDO : Como conheceu o Projeto Sonhadorismo e o que a fez conectar-se com o projeto?

R: Investigando sobre eventos em Portugal, cheguei á Futurália. Lá encontrei o “Sonhadorismo”, que me chamou atenção pelo nome. Àquela altura, dava aula para o 1º ano do Ensino Médio (em Portugal equivale ao 10º ano) e estava imensamente incomodada com o estado “Zumbi” dos alunos. Absolutamente nada os parecia motivar. Sentia desânimo e até tristeza entre eles e buscava alguma ideia nova que me ajudasse a levar uma nova perspectiva para aqueles meninos. Ao conhecer o Sonhadorismo, senti-me contemplada em diversos aspectos. Eu indivíduo, via-me representada pelo conceito e eu professora via uma luz ao fim do túnel. Falar de sonhos hoje é um ato corajoso, viver os sonhos é um ato de resistência. Isso me fez procurar engajamento maior à ideia, foi quando entrei em contato, via e-mail, com o professor Rui. Os diálogos que surgiram das trocas de e-mails alimentaram cada vez mais minha fé no Sonhadorismo como uma opção real para o “fazer
diferente”.

SDO :  Como surgiu a ideia de implementar um programa de sonhadorismo na sua escola?

IZA : Estava muito entusiasmada com os emails com o professor Rui, assim partilhei a ideia com um colega próximo, professor José Júnior, coordenador da Área de Matemática. Vale esclarecer que somos atuantes no Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré, além de professora eu coordeno a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Como Maristas, seguimos um material que orienta nosso trabalho, a Matriz Marista. Essa guia foi formulada a partir da filosofia de educação marista, de São Marcelino Champagnat, sendo bastante vanguardista em muitos pontos. Nossa escola nos pede uma educação libertadora e formadora de seres humanos, em resumo é isso. Assim, tínhamos respaldo na própria base que rege nosso trabalho. Há um tempo queríamos organizar uma ação pedagógica, na qual pudéssemos mostrar aos alunos, através de competências e habilidades ligadas às nossas áreas, que os conhecimentos académicos devem ser vistos como instrumentos
para a resolução de situações-problema e que, na verdade, não há muros entre as áreas de conhecimento. Depois de vários diálogos, percebemos que seria uma ótima oportunidade para iniciarmos um trabalho com o Sonhadorismo, o qual seria alicerce para o desenvolvimento do projeto.
Assim, demos início ao projeto SONHA-FAZER-ACONTECER, no qual os alunos são convidados a ter um encontro com seus sonhos e planejar ações para que os mesmos tornem-se realidade.

SDO :  Qual foi a reação dos alunos?

IZA : Antes de iniciarmos o projeto, logo ao início do ano, falamos com os meninos sobre “sonhos”. As reações de muitos foi de desdém, descrença: “esses professores estão malucos?”. Alguns meses se passaram e falávamos aqui e ali sobre a temática. Quando surgiu a proposta do projeto, logo expusemos às turmas a parte prática da coisa, relacionando as competências
e habilidades das áreas envolvidas, mostrando de que jeito elas auxiliariam na conclusão do projeto e COMO aquelas tarefas interfeririam na vida pessoal deles. Percebemos aí um despertar de boa parte do grupo. Ainda estamos na execução desta parte do projeto à qual chamamos “projeto piloto”, pois ainda está em fase de experimentação para avaliação primeira
das variáveis e definição de um projeto maior para o ano inteiro e a colaboração das duas outras áreas de conhecimento, a saber: natureza e humanas. A primeira tarefa foi realizada com a ajuda do professor Rui, que nos cedeu material utilizado por ele, o “Journaling”. Fizemos adaptações poucas por conta da língua e dos contextos nossos e aplicamos. Ficamos muito surpresos com o incômodo causado nos alunos. Confesso que nos deixou felizes ouvir dos meninos “o quanto era difícil falar de si”. Após esta etapa, seguimos para a organização de um calendário que projetaria eventos para o triênio (2019, 2020, 2021), neste passo aplicamos de forma mais direta algumas habilidades das áreas envolvidas, como por exemplo, trabalhar com probabilidades considerando o aspecto aleatório dos fenómenos naturais e sociais. Mais uma vez o alunos mostraram incómodo e sentiram dificuldade, até porque o trabalho querer o paralelo entre o que se tem e as aspirações, as possibilidades e as realidades. Percebemos que a cada passo dado, mais conquistamos a adesão dos alunos ao projeto. Confesso que nossas expectativas são as mais altas. Não posso deixar de dizer que esse projeto não envolve somente os alunos, tanto meu colega como eu estamos imersos em todas as ações, não apenas como orientadores, mas como vivenciadores. Nos vemos e nos admitimos hoje como sonhadores, buscando alinhamento cada vez mais justo àquilo que dialoga com nossa essência.

 

SDO : Que resultados espera obter com a implementação desse programa?

IZA: Alunos sonhadores, alinhados com a essência de seus sonhos, entusiasmados com suas buscas.

 

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