Uma das principais razões para o adiar nossos sonhos e da conexão com os nossos interesses e paixões, , é a desculpa de Ser Tarde Demais.

Aos 15 anos muitas vezes já se é tarde demais para muita coisa. Aos 25 mais ainda, assim como aos 35, 45, 55, 65….. É sempre tarde demais para qualquer coisa. E aprendemos a viver neste estado de alma. Nesta coisa, paradoxalmente tão conveniente que é o de ter uma desculpa fácil e aceite por todos ( pois todos usamos a mesma desculpa), para não arriscarmos o suficiente, por ser tarde demais. E assim nos mantemos até que alguém nos prova o contrário.

A mim aconteceu-me pela primeira vez em 2006, tomar consciência de que havendo coragem nunca é realmente tarde para nada na vida. Em Janeiro de 2006 encontrava-me numa enorme aventura, estudando e vivendo na Austrália. De todos os meus colegas de curso, destacava-se o Cézar pela sua pronúncia Sul Americana, mas sobretudo pela sua quase calvície, disfarçada por uns resistentes cabelos brancos que teimavam em permanecer na sua cabeça.

Nessa altura tinha eu 26 anos, poucos mais do que a maioria dos meus colegas de mestrad pouco dados a conversas mais profundas, ou relações para além da partilha de um charro ou uma cerveja. Talvez por isso aproximei-me do César e da sua história.

O César tinha 45 anos e tinha abandonado uma vida estável numa Venezuela já na altura destruída pela ditadura tirana de Chávez. Após alguns anos a enviar clandestina e arriscadamente dinheiro para os Estados Unidos, e após vender ao desbarato a sua casa e os carros, César aproveitou o seu passaporte diplomático e acompanhando uma delegação desportiva ao estrangeiro, decidiu fugir com a família ( a sua segunda mulher e dois filhos de 7 e 9 anos). O destino seria a Austrália, em busca de uma vida não financeira mas socialmente mais confortável.

O plano incluía chegar à terra dos Cangurus, arranjar um bom emprego e tirar um mestrado. Mestrado esse que lhe abriria as portas de um El Dorado, capaz de compensar a tristeza de saber que jamais poderia voltar à sua terra natal, pelo menos enquanto os tiranos se mantiverem no poder.

A realidade porém revelou-se bem mais dura. Ao fim de 6 meses, César outrora um quadro superior do ministério do Desporto Venezuelano, o melhor que tinha conseguido era um emprego como empregado doméstico. O dinheiro que pensara ser suficiente para dois anos, sê-lo-ia apenas para um. E o País que imaginou ser dos mais propícios à emigração, revelava-se cruelmente frio e distante. Findo o mestrado, caso não arranjasse uma carta de recomendação que atestasse ser imprescindível para o cargo que ocupasse, não poderia permanecer na Austrália.

Cézar sofria com esta incerteza e vivia um enorme desapontamento, relativamente ao que encontrara na terra que tinha escolhido para viver o seu sonho. Mas não desistia. Sabia que não tinha outra hipótese, pois o regresso a casa não era possível e sair para outro País, era financeiramente incomportável. Cézar tinha apostado tudo neste cavalo e não podia dar errado.

Confesso que na altura com 26 anos, apesar de querer muito que a sorte o ajudasse, olhava para ele, com mais 20 anos do que eu, e pensava… “se calhar foi tarde demais”.

Findo o meu Mestrado regressei a Portugal e despedi-me do César desejando-lhe boa sorte e sobretudo coragem. Disse-lhe que tudo iria ficar bem, mas sem grande certeza de que o que lhe dizia era possível de se concretizar.

O Cézar na altura não tinha facebook. Tentei contactá-lo pouco tempo depois por email e não obtive resposta…. “Se calhar não conseguiu ficar na Austrália”…. pensei eu!

Eis que há pouco tempo lembrei-me novamente do Cézar e decidi procurá-lo no facebook. Encontrei-o! Foi com imensa felicidade que no seu perfil li “Vive em Gold Coast, Australia” ; “Senior Training na empresa Eagle Academy

Se dúvidas houvesse, fiquei com a certeza de que resistindo ao medo da incerteza e vulnerabilidade, querendo muito, e acreditando nas nossas capacidades, nunca é tarde demais na vida.

#KeepDreaming

Texto da Autoria de Rui Loureiro Mentor do Projeto Sonhadorismo