1. Quem  é a família da Selma ? 

R: A família da Selma é composta por 5 pessoas. O pai José, a mãe Selma e os filhos: Gonçalo, Mateus e Benedita. O José é enfermeiro, a Selma é advogada, o Gonçalo quer ser design, o Mateus cientista e a Maria, ainda não sabe muito bem o que quer ser, mas adora dançar. Somos todos diferentes: uns são teimosos, outros refilões, há os mais tímidos e outros mais conversadores, mas adoramos estar juntos. Temos uma palavra que nos une: “​Ohana​”, que significa família, e família significa que ninguém fica para trás ou é esquecido.

2. Muitas vezes as pessoas associam sempre projetos como o Sonhadorismo a histórias de viagens à volta do mundo ou de algo muito “out of the box”. O teu caso e da tua família é mais real e pode servir de inspiração a muitas pessoas. Como surgiu a ideia de largar tudo e partir para Inglaterra?

R: O desejo de sair e conhecer novos “mundos” há muito que vinha a ser pensado mas foi com a crise económica que Portugal estava a atravessar que sentimos que estávamos a definhar. Cada vez trabalhávamos mais horas, cada vez tínhamos menos tempo em família, o dinheiro era cada vez menos e sentíamo-­nos infelizes, cansados e sem perspetivas para nós e sobretudo para os nossos filhos.

Todos os dias recebíamos notícias sobre a migração de enfermeiros (área do marido) para vários lugares do mundo. Como a língua inglesa é o nosso forte, começámos a ponderar a tentativa do José procurar emprego no Reino Unido, apesar das propostas para o Dubai e Austrália também serem aliciantes. Para nós o Reino Unido era o ponto de partida para outros voos… Estava perto de Portugal e por isso poderíamos viajar com maior frequência entre os dois países.

Não foi preciso esperar muito porque existe grande oferta de trabalho para os enfermeiros na Inglaterra. Após uma entrevista o José foi aceite e veio para Londres. A seguir viemos nós os quatro com malas carregadas de muitos sonhos e alguns receios! Os filhotes já estão integrados na escola e eu própria já estou a exercer advocacia em Londres.

3. O que mudou na tua vida desde que aterraram em terras de Sua Majestade?

R: Mudou muita coisa. Andamos todos menos “stressados”. Aqui não existe a pressão escolar e laboral como existe em Portugal. Temos mais tempo em família, mais tempo para passear, para brincar e saborear cada momento. Mudou a maneira como olhamos os outros devido à diversidade cultural (que não estávamos habituados a ver ao nosso redor em Coimbra). Aqui ninguém liga à cor do cabelo, se comes na rua, se andas de chinelos ou descalço, se vais de pijama ao supermercado. Não se vive de aparências, de status quo, da importância da imagem ou o que fazes na vida. Aprecia-­te pela pessoa que és e pelo teu esforço no trabalho que desenvolves.

Ao fim de 6 meses, os meus filhos já não estranham se estiverem sentados junto de muçulmanos, africanos, japoneses, punks, indianos, ou qualquer outra pessoa. A própria política escolar (pelo menos a dos meus filhos) assenta na multiculturalidade e promove com frequência atividades culturais de cada país e de respeito pelo próximo.

Deixámos de dar importância ao supérfluo para dar valor ao singelo.

Mudou a forma de nos vermos. Hoje, temos orgulho por nos termos tornado mais fortes e capazes de enfrentar as dificuldades que nos surgiram nos primeiros meses de adaptação. Estávamos limitados ao nosso círculo imediato: família, amigos e colegas de trabalho. Tínhamos a segurança do nosso “quintal” e passámos a ter uma “floresta” para descobrir.

4. ­ Qual a importância dos vossos Filhos na decisão de avançar para este projeto de vida?

Os filhos foram a principal razão da nossa decisão. Para além de projectarmos o seu futuro, na medida em que acredito que aqui existe uma maior possibilidade de escolha e sucesso profissionais, estamos a abrir­-lhes os horizontes, a dar-­lhes oportunidades de viverem novas experiências, de lhes facultar ferramentas para poderem ir para qualquer lugar do mundo e serem felizes.

5. Como acham que os vossos filhos “verão” esta aventura daqui a 10 anos?

R: Espero que daqui a 10 anos sintam que valeu a pena tentar, que esta aventura contribuiu de forma positiva para a formação da sua personalidade e vejam o mundo com outros olhos.

6. O que dirias a uma família que ande a adiar tomar uma decisão como a vossa?

R: Confesso que tomar esta decisão não foi fácil. Exigiu da família objetivos comuns, muita união e espírito de sacrifício.

Acho que deve ponderar todos os prós e contras e deixar falar o coração. Pensar no que é realmente importante, no que nos faz felizes enquanto família e individualmente. Acho que nunca me perdoaria por não tentar realizar este projeto. Não foi uma teimosia minha, mas um projeto em comum, de equipa. Lamentar o que não temos ou o que não fazemos (com mil desculpas) é a postura mais fácil. Mas não é a minha postura. Prefiro arrepender-me de ter tentado, do que não fazer nada e criticar quem toma a decisão de partir ou ficar. Sacrifício não é sinónimo de algo mau, doloroso, mas ao invés, de amor, resiliência e muita paciência para alcançar as nossas metas (sejam elas quais forem).

7. Quais as tuas maiores fontes de inspiração durante esta fase que fizeram com que nunca desistissem desta ideia?

R: Os meus pais, sem dúvida! Por motivos diferentes, também eles tiveram que sair do seu país (Angola), deixando uma vida para trás e regressar a Portugal com quatro filhas. Em 1974 tiveram que recomeçar uma vida do zero, sem casa, sem trabalho e sem ajuda familiar. Estavam sozinhos num país que não conheciam (o meu pai, avós e bisavós já haviam nascido em Angola). Eles são para mim o meu maior exemplo de coragem, de amor, de união, de sacrifício e muita resiliência em alcançar aquilo que haviam perdido e cumprir o seu objetivo de dar às filhas o conforto, carinho e educação. Este exemplo tem sido a minha inspiração e auxílio em todos os momentos.

8. Até ao momento qual a pessoa, acontecimento, paisagem mais inspiradora que tiveste a oportunidade de conhecer desde que partiram?

R: ­ Temos conhecido muitas pessoas (portuguesas e inglesas) que rapidamente se transformam em amigos. Existe uma grande entreajuda entre os portugueses e os ingleses são muito prestáveis. A paisagem ao nosso redor é deslumbrante. O verde acompanha­-nos onde quer que vamos. A zona costeira tem praias lindas (adoro mar) e água quente (ninguém acredita até experimentar, e nós já fomos a banhos!!!).Admiro a importância que dão ao desporto, aos espaços verdes e à proteção a crianças e idosos.

9. Qual o Teu / Vosso maior motivo de orgulho?

R: A nossa família e por tudo que temos alcançado.

10 ­. Qual o Teu / Vosso maior motivo de orgulho?

R: Temos muitos! Vou escolher dois: ver os filhos a ganhar asas e viver na Austrália ou Califórnia por uns tempos…