Quantos de nós não imaginam quão bom seria mudar de vida, deixar para trás as amarras das convenções sociais e do ritmo diário extenuante, libertar-nos da rotina e viver em pleno, desfrutando da vida com as pessoas que amamos, fazendo o que nos move e realizando os nossos sonhos?

O Sonhadorismo pretende dar um impulso na passagem do sonho para a realidade, um empurrãozinho em direção à realização do ideal de vida, um reforço àqueles que não têm a coragem de arriscar, mas que não estão conformados com a sua vida monótona e pré-estabelecida.

Assim, muita gente está aberta à mensagem. Muita gente sente que é importante apoiar e fomentar a realização do sonho dos filhos, dos parceiros, dos amigos. Que é importante repensar a própria biografia e questionar se é mesmo o caminho ideal que se percorreu e, se não, se haverá mais para além do conhecido. Mais potencial, mais vida, mais aventura, mais realização pessoal…

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Geralmente concordamos que sim, que há mais; que é preciso coragem, apoio e empenho para sair do conhecido e caminhar para o novo, alcançar essa vida que faz mais sentido.

Chegados a esta fase, convido-vos hoje a refletir até que ponto realmente estamos dispostos a apoiar o sonho de vida dos que nos são próximos…

Aceitamos quando alguém sai da caixa e inicia projetos novos, destemidos, inovadores?
Apoiamos, quando alguém nos pede ajuda para realizar sonhos inesperados, ideias fantásticas, intenções pouco comuns?

Para exemplificar, aqui vão duas histórias quase reais:

A primeira trata do Zé, 37 anos, casado e com dois filhos. O Zé formou-se em medicina, realizando o “sonho” dos pais (que nestes casos mais não é, do que a elevação do ego dos pais com base na ascensão social do filho); trabalha 45 horas semanais, almoça em família no Sábado, joga golf no domingo com os amigos, viaja para longe nas ferias e tem “a vida feita”.
Porém, o Zé lá no fundo, no fundo, está insatisfeito. Sente um vazio, uma falta de motivação, uma sensação vaga de que a vida lhe está a passar ao lado enquanto ele está afundado em stress e trabalho.
Questiona-se, pensa e repensa, e chega à conclusão que seria muito mais feliz se fosse piloto de avião. Apresenta a ideia à família, aos amigos. Decidido que vai mudar de vida, que vai realizar o seu sonho, pede apoio emocional e financeiro à família e aos amigos.

Estes estão primeiro incrédulos (“Então mas ele estava tão bem na vida?! Vai mudar tudo? É louco!”), depois reticentes (“ Talvez ele até tem jeito para piloto…”) E por fim, decidem apoiar (“Ele está mesmo determinado. Vai ser um bom piloto e EU fui quem o apoiei nessa decisão”)…
O Zé dá então o passo temido, despede-se e faz a formação de piloto. Mais tarde, arranja trabalho como piloto de aviões privados, viaja pelo mundo, vive uma vida completamente diferente da que tinha antes. Ele, a família e os amigos estão orgulhosos: ele “realizou o seu sonho”, “foi corajoso” e conseguiu uma vida ainda mais bem vista aos olhos da sociedade.
Por vezes, o Zé sente um mal-estar que não consegue explicar. Uma falta de motivação, um cansaço e um vazio, como se ainda não estivesse mesmo feliz…Mas rapidamente cala a sua voz interior com o aplauso social de um mundo que vê nele um aventureiro corajoso e bem sucedido…

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A segunda história trata da Ana, 35 anos, solteira.
A Ana licenciou-se em direito, realizando mais uma vez o sonho dos pais. Sempre adorou desenhar, mas nunca se pôs a questão de fazer da arte a sua vida. Trabalhou alguns anos como advogada, acumulando dinheiro e bens, qual menina bem educada que segue os conselhos dos pais e nunca se desvia do caminho que eles lhe prepararam.
Porém, a Ana está insatisfeita, depressiva. Farta-se de trabalhar, está sempre cansada e em stress. Os fins-de-semana não chegam para descansar e fazer tudo o que ela gostaria de fazer. Um dia, para grande surpresa da família e dos amigos, a Ana anuncia que se vai despedir e dedicar à arte, mais propriamente ao desenho.
As pessoas estão chocadas! Uma vida tão bem organizada, um trabalho estável, socialmente bem aceite, tudo o que aparentemente é importante- e deixar isso tudo de livre vontade? A Ana explica e defende a sua posição: que quer realizar o seu sonho, quer viver da sua arte, aprofundar o seu potencial, desenvolver o seu talento… Amigos e familiares começam a ceder das suas posições rígidas e pensam: “Realmente a Ana tem jeito para o desenho. Sempre teve. Ela está determinada. Quem sabe, ela ainda virá a ser uma artista famosa? Uma pintora conhecida com exposições em New York e Paris? Uma artista conceituada que expõe em galerias famosas? E EU apoiei essa decisão? EU ajudei a realizar esse sonho? EU fui das pessoas que acreditou nela e a fez avançar?” E familiares e amigos dão-lhe a sua bênção, generosos e convencidos que um dia se poderão pavonear na luz da futura artista.
Mas a Ana, que realmente segue o seu sonho: de abdicar de bens materiais em prol de uma vida mais plena e integra, de poder criar, desenhar; de poder gerir o seu dia, a sua vida…a Ana, torna-se, por opção, uma artista de rua, que desenha e vende caricaturas nas zonas pedonais das cidades.
Ela trabalha apenas o necessário para sobreviver e vive de mochila às costas, de cidade em cidade, conhecendo imensos lugares e pessoas e desfrutando do seu quotidiano, aprofundando o seu talento pelo desenho, satisfazendo a sua curiosidade inata…
Família e amigos não a compreendem, os pais até sentem vergonha. As pessoas da sua vida de advogada afastaram-se, considerando-a uma louca, uma falhada, um “ninguém”. Porém, Ana nunca se arrependeu.

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E agora convido-vos a refletir:
Qual dos dois casos apoiariam?
Qual dos “sonhos” vos parecem dignos de ser realizados?
Será que são ambos casos de motivação intrínseca?
Será que ambos os casos conduzem a uma verdadeira mudança interior no sentido da felicidade pessoal?
E como distinguimos entre o nosso verdadeiro desejo, a nossa motivação intrínseca, o nosso objetivo de vida- e as ideias que nos foram incutidas pela sociedade em que crescemos? (É fácil dizer que o nosso sonho é ser cirurgião- o que por “mero acaso” também foi o “sonho” do pai e do avô e garante uma bela posição social e bem-estar material- mas é menos fácil admitir e realizar o sonho de ser carpinteiro ou jardineiro…)

Até que ponto a aceitação do nosso caminho por parte da família e amigos, da sociedade no geral, é necessária para a nossa felicidade pessoal? Porquê?
Teremos mesmo a capacidade de nos conectar connosco e seguir o nosso chamamento, mesmo se isso for completamente contra as convenções sociais?

Estamos dispostos a apoiar incondicionalmente os sonhos dos que nos são próximos, mesmo se estes forem excêntricos e sem previsão de estatuto social?

Julgo que apenas é de verdadeira coragem e mudança, se o sonho ultrapassa a banalidade e o pântano das convenções; se não se limita a uma auto-promoção, à satisfação dum Ego inseguro; se não se fica por mudanças mínimas e insignificantes.

Gostaria que todos nós parássemos um pouco, para descobrir a verdadeira essência dos nosso sonhos…

 

Texto Escrito pela Colaboradora SDO

Agnes Sedlmayr