Cada vez mais se torna difícil escrever sobre alguém em vida, sobretudo porque na nossa época escasseiam exemplos de pessoas que fizeram ou elaboraram grandes obras – e com isso, deixaram grande legados, lições para os outros. A pessoa de quem escrevo hoje também já nos deixou e os últimos dois anos têm sido dificilmente cruéis – quantos sonhadores não pereceram perante eles?

“Inundados por informação mas famintos por sabedoria”, disse-o uma vez Zygmunt Bauman, um dos sociólogos mais destacados de sempre que nasceu na Polónia e nos deixou neste ano, no passado dia 7 de Janeiro. Nascido em 1925 e tendo passado pela 2ª Guerra Mundial enquanto judeu, afirmava-se um confesso apreciador do Comunismo, tendo anos mais tarde estudado com alguns dos seus colegas na Universidade de Varsóvia abordagens mais humanistas do Marxismo chegando mesmo ultimamente a dizer, que o Socialismo é, mais do que nunca, necessário no mundo (Na teoria política Marxista, que é comummente conhecida por Comunismo, a primeira fase é conhecida pelo Socialismo e o mesmo é uma passagem antes da verdadeira revolução; nada tem a ver com o Socialismo proveniente dos valores do Iluminismo, o mais parecido que existe com o Socialismo atual europeu, que, creio eu, seja o que o polaco se refere).
Mas o brilhantismo da pessoa afasta-se e muito das suas ideologias políticas podendo dizer-se que só é conhecido pela criação do conceito de “Modernidade Líquida”, embora seja exagerado dizer que é só (re)conhecido por causa do mesmo. De acordo com Bauman, nos tempos atuais, as relações entre os indivíduos nas sociedades tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. Uma das suas frases que pode ser traduzida, em português para “as relações escorrem por entre os dedos”; é um dos melhores exemplos que ele figurativamente nos deu.

Segundo o seu conceito de “relações líquidas”, formulado, por exemplo, em Amor Líquido, as relações amorosas deixam de ter aspeto de união e passam a ser um mero acumular de experiências, com a insegurança passando a ser parte estrutural da constituição do sujeito pós-moderno, conforme escreve em Medo Líquido o pós-modernismo é um período que abrange imensas áreas do saber e que basicamente se destaca por um elevado grau de ceticismo e questionamento da realidade, rejeitando assim as grande narrativas da História. Para o mesmo, verdade e conhecimento são produtos de discursos sociais, históricos ou políticos.

Bauman é frequentemente descrito como um pessimista na sua crítica ao mundo pós-moderno – confuso não? Um homem que é capaz de denunciar as principais consequências que o Sistema Internacional criou com o Capitalismo é conotado de pessimista, imaginem. Porque se calhar quando as pessoas ficam a saber do seu conceito de “Modernidade Líquida” não ficam imediatamente conectadas ao mesmo? Parece-me a mim mais o contrário.

Uma vez mais, os avisos foram dados, e até, já foram descritos quais as causas e efeitos do problema. Talvez se estivéssemos todos um pouco mais atentos, poderíamos já conhecer Bauman e poderíamos todos tentar ser um pouco mais “sólidos” de dia para dia.

PS – Existem inúmeros livros do autor traduzidos para português, destacando-se “A Arte da Vida“.

Texto da Autoria de Diogo Rodeiro, Gestor de Conteúdos do Projeto Sonhadorismo