Texto da Autoria da Colaboradora SDO Agnes Sedlmayr // www.livreparacrescer.com

Para podermos descobrir e desenvolver o nosso potencial, explorar os nossos interesses, viver de forma plena e íntegra, alinhados com os nossos sonhos e as nossas intenções, não basta que alguém nos dê o conselho tão badalado mas tão profundamente banal: “Vá! Vive o teu sonho! Tu consegues!”. Não basta ter um conjunto de fãs, uns amigos que trocam superficialidades ou uns pais que nos empurram para a água fria com a intenção de estimular o nosso desenvolvimento. Não basta termos a autorização generosa da sociedade para podermos “realizar os nossos sonhos” (mas se faz favor apenas ao fim-de-semana, de modo a não incomodar ninguém e de preferência um “sonho” que dê alguma visibilidade pessoal, portanto algo considerado cool, radical, new age ou criativo no sentido mediático…)

Nada disso basta, nem sequer vai na direção de proporcionar o encontro com o próprio EU, com a nossa vida interior. Nada disso leva à descoberta dos nosso interesses e talentos, à auto-análise ou à realização pessoal, sem os quais não é possível viver de forma equilibrada e entusiasmada.

O que precisamos verdadeiramente- o ingrediente fundamental para que sejamos capazes de saber quem realmente somos, o que nos faz bem, por onde queremos ir e como lá chegaremos, é uma boa auto-estima.

Uma boa/saudável auto-estima carateriza-se por um sentimento de estar bem consigo próprio e seguro de si, sem medo de pressões exteriores, opiniões ou avaliações.[1]

Só se tivermos uma auto-estima saudável é que realmente conseguimos descobrir o que queremos, nós próprios, independentemente das condicionantes externas.

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Infelizmente hoje em dia grande parte das pessoas sofre de problemas de auto-estima. A grande maioria das pessoas nunca vive o seu potencial máximo, não encontra dentro de si a fonte da sua criatividade nem se aventura por meandros desconhecidos onde haja possibilidade de falhanço. Sentindo-se seguros enquanto não há perigo de insucesso, não arriscam pensar ou viver de forma não-generalizada, pois a sua auto-estima não aguentaria qualquer “falha” aos olhos dos outros.

Desde as grandes figuras da política ou da economia, ao mini homem-de-sucesso da cidade, passando pelo amigo que subiu alto na sua carreira ou a vizinha que armazena prémios ganhos em concursos, nada disso é sinal de uma auto-estima saudável.

Uma visão grandiosa de si próprio não assegura uma auto-estima saudável; a necessidade de contradizer, de ter sempre a última palavra, de querer sempre ter razão, de culpar outros pelos próprios falhanços, de rebaixar aqueles que consideram inferiores na hierarquia social, de aceitar ordens dos mais poderosos, sem revolta… Tudo isto não é, de todo, sinal de uma boa auto- estima.

Porém, a nossa sociedade está cheia de pessoas assim, pessoas que, muitas vezes sem se aperceberem, mantêm uma pobre e negativa visão de si próprias.

A mulher que necessita ter um corpo de 18 quando tem 45 anos…O homem que é workaholic e não consegue desligar dos seus afazeres constantes, dentro dos quais se sente importante. O jovem que não consegue desligar das redes sociais, que tira constantemente selfies e só sente que vale alguma coisa se acumula muitos likes. A adolescente que experimenta todo o tipo de aventuras extremas para impressionar. A criança que aceita, calada, qualquer decisão sobre a sua vida, tomada pelos seus pais sem lhe dar direito a opinião. O “artista” que necessita de produzir incessantemente para “mostrar trabalho”. O político que é capaz de ultrapassar tudo e todos para subir e manter-se na sua posição social… Os exemplos são incontáveis. Exemplos de pessoas que não estão seguras de si, embora muitas vezes pareçam “os maiores”. Mas que, caso a imagem que criaram e mantêm perante a sociedade, uma imagem de “político”, “executivo”, “empresário”, “professora catedrática”, “aventureiro”, “criativo”, “presidente do clube” ou outra qualquer- desmoronasse, se sentiriam profundamente humilhados e a sua vida sem sentido nem direção…

Há ainda aqueles que confundem uma “boa auto- estima” com uma visão de si próprios baseada em resultados que obtêm: dinheiro, boas notas, objetos materiais, posição social, produtividade… No entanto, essa auto-estima não é saudável, pois varia conforme a capacidade de produzir determinados resultados. A pessoa considera-se um ser humano válido porque conseguiu/adquiriu/fez isto ou aquilo…” Porém uma auto-estima saudável manifesta-se antes pela ideia de que a pessoa é um ser humano válido, independentemente se sabe, consegue ou faz isto ou aquilo”…

Ninguém nasce com baixa auto-estima. Não é genético nem acontece à nascença. A destruição da auto-estima é, infelizmente, um efeito secundário do tipo de educação comum na nossa sociedade. Uma educação que valoriza a performance, exige resultados e avalia e compara constantemente. Uma educação em que as ligações afetivas, os relacionamentos humanos, são secundários.

Simultaneamente a viver num clima de pressão para apresentar resultados e competências, a criança é constantemente avaliada, criticada e manipulada.

Muitíssimas crianças nunca sentiram ser amadas e aceites pelo que são, independentemente do seu aspeto, das suas notas na escola ou do seu comportamento.

Poucos educadores conseguem dar amor e apoio incondicional, ou nas palavras de Carl Rogers “unconditional positive regard”[2]– que é imprescindível para a manutenção de uma boa auto-estima. A “atenção positiva incondicional”, como poderíamos traduzir, consiste num ambiente familiar/educativo harmonioso e amável, onde a criança é aceite e bem-vinda para descobrir e seguir os seus interesses, admitir erros e demonstrar emoções e vulnerabilidades. Onde a criança sabe que será ouvida e apoiada, por mais desconfortável que os seus problemas sejam; onde a criança se pode exprimir à sua própria maneira e onde será levada a sério, será respeitada totalmente. Um ambiente familiar e escolar em que a criança é soberana, dona da sua vida e competente nas suas decisões.

Quem de nós teve a felicidade de crescer num ambiente assim? Quem de nós pôde exprimir livremente as suas emoções? Quem de nós não foi permanentemente submetido a chantagens e avaliações, a pressão para mudar comportamentos e adquirir competências, para ser produtivo, fazer, fazer, fazer para mostrar?!

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Nos imensos estudos na área da psicologia sobre auto-estima, destaca-se uma tendência universal[3]: praticamente nenhum adulto dos milhares que participaram nos estudos, em criança se sentiu confortável para confiar as suas emoções mais intensas, suas preocupações profundas, seus medos e seus sentimentos aos seus pais. Todos dizem mais ou menos o mesmo: que guardavam as suas emoções para si, que não exprimiam sentimentos negativos ou fortes, que mantinham segredo sobre impulsos e medos- porque os pais não iriam gostar…

Porque os pais estavam, eles próprios, emocionalmente tão distantes dos filhos que não lhes confiavam suas próprias emoções. Que não eram exemplo como gerir emoções fortes. Que era preferível reprimir sentimentos, pois não seriam compreendidos. Que chorar, berrar, tristeza, ciúmes, ansiedades, medos, gritos ou alegria ruidosa não eram bem-vindos, por vezes as crianças até eram gozadas, castigadas ou não eram levadas a serio.

Os adultos queriam apenas ver as partes da personalidade das crianças que lhes eram agradáveis.

Assim, cedo aprenderam a reprimir suas emoções, calar, disfarçar. Mas sentimentos intensos e emoções são partes fundamentais da nossa personalidade. Sendo reprimidas, reprimimos aspetos nossos que deveríamos conhecer, com os quais nos deveríamos confrontar.

A criança cujos sentimentos não são aceites e levados a sério, internaliza que não são válidos. Extrapola, que ela própria não será válida, que a sua forma de ser não é bem-vinda, que suas emoções não são importantes- e aqui estão as bases para os problemas de auto-estima que existem e são perpetuados no nosso sistema de educação comum.[4]

Há alguns anos atrás, um estudo científico em Toronto[5] alegou que homens teriam uma auto-estima maior do que mulheres; basearam o estudo na pergunta, se os entrevistados alguma vez se sentiam desanimados, vulneráveis ou sós. Dado que a maioria dos homens negou essa questão, enquanto que um conjunto de mulheres a confirmou, concluiu-se que os homens teriam melhor auto-estima! Mais tarde, este estudo foi bastante criticado pela comunidade científica, pois o que se mediu realmente não foi a auto-estima, mas a supressão e negação de sentimentos- sintomáticos para uma baixa auto-estima!

Isto demonstra apenas, como existem mitos e ideias erróneas em torno da auto-estima, que convêm repensar…

Para que alguém possa desenvolver o seu potencial e descobrir-se, descobrir seus talentos e interesses e avançar para uma forma de vida adequada para si independentemente dos condicionalismos sociais, é necessária uma boa auto-estima. É necessário que não se procure o aplauso, nem se meça por aquisições, estatutos, títulos ou prémios.

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Mas como reparar uma auto-estima danificada por muitos anos de condicionamentos educacionais? Como conhecer-se a si próprio, depois de uma vida passada a querer agradar, disfarçando e anulando partes desagradáveis da personalidade?

Requer mais do que umas frases banais, como o “Amo-me”, tão em moda mas tão superficial. Requer sim, uma vontade imensa de descobrir-se e de despir as camadas de defesas, construídas na infância e mantidas por ansiedades e hábitos comportamentais emergentes dos nossos modelos internos de comportamento. Requer também coragem para aceitar erros, admitir falhas e reaprender pacientemente a sentir e a expressar emoções.

É a partir das emoções intensas que descobrimos as nossas paixões. São as emoções (muito mais do que a razão!) que nos levam a optar por determinados caminhos; são os sentimentos fortes que nos indicam se vale a pena arriscar; em suma, é apenas se nos conectarmos com o nosso interior através de um trabalho desconfortável, difícil e moroso, que lentamente encontraremos o nosso EU e poderemos ser livres para optar por formas de vida mais alinhadas com os nossos sonhos.

[1] Branden, Nathaniel, The Psychology of Self-Esteem: A Revolutionary Approach to Self-Understanding, January, 2001

[2] Rogers, Carl, On Becoming a Person: A Therapist’s View of Psychotherapy, September, 1995\

[3] Maté, Gabor, Scattered: How Attention Deficit Disorder Originates and What You Can Do About It, August 2001

[4] idem

[5] University of Toronto: Parental authority, nurturance and two-dimensional self-esteem, Dept. of Psichology, 2010